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10 Dez 2008 

SÉCULO XVII: “SERMÃO DO SEGUNDO MANDATO”

HAMMES, Mirian


A análise prefixal deste sermão foi realizada numa edição de 1965, não encontraremos dificuldades quanto à compreensão da grafia vocabular.

Vejamos a produtividade prefixal desta obra, observando a Tabela 09.

Tabela 09: Prefixos do “Sermão do Segundo Mandato”,  século XVII

 


Prefixos latinos

Vocábulos “Sermão Do Segundo Mandato”.


 A- AD-

assente-se (2), assentar, atirava, atirou, atrevo, afirmar, afigura (2), ajuntamadmiráveis, advertência


 AB-

Absolver


 CON-  CO-

consigo, contenta, contender, comparou, contudo, consentiu (2), confirmação, , confirma, concursocomutação


 CONTRA-

Contrapondo (2), contrapor, contrapôs


 CIRCUN-

circunstâncias (2)


 DES-   DE-

desigual, desfaz, desafogando, desenganados, despegar-se, desamor, descuido, desquitou, deslealdade, desleais, desagradarem, desprezastes,  desapego (3), desprezar, desenganemo-nos demanda (3), detivesse, depressa, debaixo, descreveu, despedio (de + ex + pedio)


 DIS-

discorrer, discurso (2), discurso (2), discorramos,


 EM-/EN-

entendem, enquanto(4), embebeu, entender(2), entendemos, encerra


 ENTRE-

Entretanto


 IM- IN-

imposto, imposta insígnias, inveja (2), intento, inferir, inferiremos, infere, inferia (3)


 IM-/IN-(negação)  

impossível, impulso, impedeminexorável, injustiça, infinitamente, inquieta, ingratidão (2), ingratos


 PRE-

preceitos, pretenderam


 TRANS-

transferi, transeunte, transformai


 PRO-

proposições (3), propostos, protestar, proposição, prometia, pronunciar, prometi


 RE-

receio, resoluções (2), replicara, resolução, regalo (3), reparar, reconciliasse, reconciliando (2), reconciliar-te, reconciliar, reconciliado (2), reconheciam, resistir, recolhido, reconheceu (2), reconheço, respeito, resolução, rebate




 6.1 Prefixos produtivos e acepções
Percebe-se que os prefixos mais produtivos do “Sermão Segundo do Mandato” são:  
·        Os prefixos: A-, CON-, DE-, DES-, EM-, RE- e PRE- são produtivos desde o século a “Carta de Caminha” (século XV) até o presente momento da análise (Século XVII)  
·        Os prefixos CIRCUN- e DIS-, que até então não eram produtivos, nesta obra (Sermão Segundo do Mandato) passam a ser.  
·        Os prefixos: AD-, AB-, IN (sentido de falta; negação), IM- e IN- (sentido de movimento para dentro), PRO- e TRANS- mantêm sua produtividade no século XVII, estes prefixos começaram a ser produtivos nos corpora pesquisados do século XVI  
Vejamos alguns  exemplos:
Exemplo 01:Sempre Cristo infinitamente, e sem nenhuma comparação, amou mais ao Padre que aos homens; porém, neste dia em que o evangelista singularmente lhes chama seus, foram tais os extremos de amor que o mesmo Filho de Deus fez por eles, que parece amou mais aos homens que ao Padre”.  (Capítulo V)Infinitamente (advérbio derivado de infinitu), significa ‘sem fim’. Exemplo 2:“Quando Cristo e Barrabás foram propostos por Pilatos à eleição do povo, clamou o mesmo povo, solicitando pelos príncipes dos sacerdotes: -Morra cristo, e viva Barrabás. (Capítulo IV)
Proposto surgiu do latim propositus, particípio do verbo proponere surgido no século XVI.
 6.2 Produtividade prefixal diacrônica: do século XV ao século XVII Vejamos a demonstração do aumento das ocorrências e da produtividade dos prefixos, servindo a Tabela 10 como exemplo.
Tabela 10: Produtividade dos prefixos latinos numa análise diacrônica  


 
Prefixos

 
OCORRENCIAS  
Século XV:  
Carta de Caminha

 
OCORRENCIAS  
Século XVI: “O Auto da Barca do Inferno” e “Os Lusíadas”

 
OCORRENCIAS  
Século XVII:  
Segundo Sermão do Mandato”


 A-

34

52

12


 AB-

0

01

01


 AD-

0

02




 
 CON-COM-CO-

010307

18

10 01


 CONTRA-

0

0

05


 CIRCUN

0

0

02


 DE-

23

17

08


 DES-

10

47

17


 DIS-

0

0

06


 EM-EN-ES-

040103

051205

0109


 ENTRE-

0

0

01


 IM-IN- (negação)I-

0020

01903

030070


 IN- (mov. para dentro)IM-

00

0502

1002


 OB-O-

00

31

00


 SO-SUB-

00

0801

00


 RE-

04

15

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10 Dez 2008 

SÉCULO XVI: CANTO III de OS LUSÍADAS

HAMMES, Mirian

Camões utilizou-se de várias fontes históricas para escrever
Os Lusíadas, usando cronistas portugueses, como Fernão Lopes, e também de fontes literárias, como Eneida, de Virgílio, Inês de Castro e trovas de Garcia de Resende. O autor conta a história da viagem de Vasco da Gama e com isso toda a história de Portugal desde sua formação, dando destaque para as expansões territoriais e conquistas. No nível formal, está dividido em 10 cantos, cada um com número variável de estrofes. No século XVI, com o aparecimento das primeiras gramáticas que definem a morfologia e a sintaxe, a língua entra na sua fase moderna.  Com Os Lusíadas de Luís de Camões, o português utilizado na obra, tanto na estrutura da frase quanto na morfologia, é muito próximo do português do século XXI, o que ocorrerá será uma pequena “evolução” de alguns vocábulos. Escolhemos o Canto III como amostragem, pois neste canto é que se encontra o lírico e célebre episódio da morte de Inês de Castro. Escolhemos a obra O Índice analítico de Os Lusíadas, de Antônio Geraldo da Cunha, que traz o fac-símile da 1a. edição e dele extrai os versos para o índice das palavras empregadas. Por ser uma obra diplomática, notaremos diferença na grafia das palavras e, no intuito de facilitar o entendimento, valemo-nos da edição de 2002, de Hêrnani Cidade, em que houve uma atualização ortográfica. Por outro lado, consideramos de relevante interesse trazer à tona as formas originais, como o emprego dúbio do v ramista, o
ò (esse floral),  vejamos: ·        A consoante ò era utilizada em alternância com s, exemplo: aòsi de assim,  enòina de ensina, inòpira de inspira, neòte de neste, òoe de soe etc. ·        O u (latino) tinha também o valor da consoante v, vejamos: aleuantam (alevantam), auzinha (avisinha), agrauaua (agravava), etc. Vejam-se as ocorrências dos prefixos latinos encontrados no Canto III na Tab. 06.Vejamos a incidência dos vocábulos encontrados na obra Os Lusíadas: A- (46 ocorrências), AD- (02 ocorrências), CON- (13 ocorrências), DES- (43 ocorrências), DE- (09ocorrências), EN- (10 ocorrências), ES- (03 ocorrências), o prefixo IN- no sentido de negação (17 ocorrências), I- (03 ocorrências), o prefixo IN- no sentido de movimento para baixo (05 ocorrências), OB-(03 ocorrências), O- (01 ocorrência) PRO- (03 ocorrências), PRE- (02 ocorrências), RE- (15 ocorrências), SO- (08 ocorrências), SUB- (01 ocorrências), TR   ANS- (02 ocorrências).Tabela 06: Prefixos latinos do Canto III de Os Lusíadas, obra do século XVI.


Prefixos latinos

Vocábulos de “Os Lusíadas”


  A-         AD-

aleuantando (4) (alevantado), arreceio , arrecea, inda (ainda),      auizinha (avisinha), aparecem, atreve, aleuantam (2),   alevuantao,  aleuantar, aleuantado (3), aceòa, aguardaua, aòsentaua, ajuntamento, amostrando, aparecia, ajudado (2), acendidos (2), acendendo, alarido, apercebido, amoòtrou,  ajuntão, ajudado, aòoprar, apercebida, ajuntada, acoòtumados, acompanhando, apercebido, aceòo, atentando, ajunta, agraua (agrava), arreceoòos, ajuntando aòfugenta adjacentes,  adversário


 CON-

contenta, conòente ( 4), conòiencia (consciência),  confiança, conòorte, confiado (2), conòentia (3), cometia, coòtumado, conòente


 DES-    DE 

deƒcobre, deòesperados, desforço, desfazer, deòcanƒa,  despreza, deòcuidado, deòcuidos, deòmede, deòonesto, deòpresou, deòconfiança, deòpreza (2), deòengana, deòenterra, deòprezas, deòculpado, deòatinado, deòcuido, deòmede, deòonesto, deòcuydado, deòcuidado, deòerdadodeòpois (15)depois, declarando, determina, deleitoòo, defronte, denotado, denotado, determina, debaxo, deòcendentes, deòtruida, depresòòa,


 EM-

ensina, ennobrecem (2), ennobrecido,  engrandece,  encontra,       endoudece, entendimento, entende, enleuado (enlevado)


 IN- (negação)  I-

immortal (imortal), inquieta (2), infiéis (2), imigos, inhumanos, inimiga, immigos(inimigo), inimigo, innumeros (inúmeros), indino, incontinência, innumeros, indinado, indina, incanòabil, injusto injuria (2),   inculta,


 ES-

Esforço, eòtender, eòtruidos,


 IN- (movimento para dentro...)

inuentor (inventor), informara, incitado,  incitando, inclinado, 


 OB-O-

obriga (2), obrigaua, oprimir


 PRO-

prometido (2), propoòsito


 PRE-

pretendes, proòupoòto (pressuposto)


 RE-

reparo, repouòano (repousar), reòiòta (3) (resista),   remete,  recolhendo, refrea, reòguarda, recobrar, recebia (2),       retumbando,  repartindo, recolhendo


 SO- SUB-

òometida (3), òemetida (submetida), òocorrella (socorrê-la), òocorrido, òojugada (subjugada), òogeitou (sujeitou)subjeito


 TRANS-

transformarão, transformado




 
5.1  Prefixos Vernáculos X Prefixos Eruditos do século XVI e acepções
“O Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente e Os Lusíadas de Camões foram obras escritas durante o século XVI, pesquisamos a produtividade dos prefixos em ambas e, fazendo a junção das ocorrências prefixais das duas obras, nota-se claramente que os prefixos vernáculos se fazem bastante produtivos, enquanto os prefixos eruditos pouco ou quase nenhuma vez aparecem:·        enquanto o prefixo A- (vernáculo) tem um total de 53 ocorrências, o prefixo AD- (erudito) apresenta apenas 02 ocorrências·        Enquanto o prefixo DES- (vernáculo) apresenta um total de 48 ocorrências, o prefixo erudito DIS- não apresenta nenhuma ocorrência·        Enquanto o prefixo vernáculo SO- apresenta um total de  08 ocorrências, o seu correspondente erudito SUB- apresenta apenas uma ocorrênciaVisando facilitar a compreensão dos vocábulos com grafias diferentes da norma padrão atual, utilizamos ao lado da versão diplomática (CUNHA, 1980) a versão atual de Os Lusíadas (CIDADE, 2002), vejamos algumas ocorrências dos prefixos:Exemplo 11. Agora tu Caliope me enƒina,                                        1. Agora tu, Calíope, me ensinaO que contou ao Rei, o illustre Gama:                             O que contou ao Rei o ilustre Gama; Inƒpira immortal canto, e voz divina,                             Inspira imortal canto e voz divinaNeƒte peito mortal, que tanto te ama.                             Neste peito mortal, que tanto te ama.Aƒsi o claro inventor da Medicina,                                 Assim o claro inventor da Medicina,De quem Orpheu pariƒte, o linda Dama:                       De quem Orfeu pariste, ó linda Dama,Nunca por Daphne, Clicie, ou Lucothôe                        Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe,Te negue o amor divino, como foe.                                Te negue o amor devido, como soe.(CUNHA, 1980, p.251)                                                             (CIDADE, 2002)O vocábulo immortal surgiu do latim immortalis, por sua vez derivado de morte. Vejamos: Imortalidade, immortalidade (1572), amortificado (XIV), amortificamento (XV),  imortal, immortal (XVI). Imortal significa a não-morte, o que viverá para sempre, que não morre. O prefixo in- tem sentido de negação, ou seja, sentido contrário (a não-morte). Já o vocábulo mortal (que não possui prefixo latino) surgiu no século XIII, do latim mors, mortis. É um substantivo feminino que significa ‘fim da vida, falecimento, termo, destruição’.
Exemplo 2
26. Eòte deòpois que contra os deòcendentes,Da eòcrava Agar, victorias grandes teue,Ganhando muitas terras adjacentes,Fazendo o que a òeu forte peito deue.Em premio destes feitos excellentes,Dulhe o òupremo Deos, em tempo breue, Hum filho, que illusòtraòòe o nome uòano Do belicoòo Reno Lusitano.  (CUNHA, 1980, p.251)  Despois significa ‘em seguida, posteriormente’. Do latim tardio depost, que deu origem às variantes depos (XIII) > depus(XIII) > depois (XIII). O vocábulo foi formado a partir do acréscimo do prefixo de-, às vezes confundido com des-, ao vocábulo pois: de + pois: despois > depois. Atualmente as formas variantes despois e depois são coocorrentes, embora só a última seja aceita pelas gramáticas e dicionários.O vocábulo adjacência é um substantivo feminino do século XVI que tem significado de ‘continuidade, proximidade’. Surgiu do latim adjacentia. Adjacente, ajacente (XV) > adjacência (XVII) > adjazer (XIX).Exemplo 3 32. O  Progne crua, o mágica Medea,                        32. Ó Progne crua, o mágica Medeia! 
Se em voòòos próprios filhos vos vingais                      Se em vossos próprios filhos vos vingais
Da maldade dos pais, da culpa alheia,                         Da maldade dos pais, da culpa alheia, Olhay que inda Tereòa peca mais:                               Olhai que inda Teresa peca mais!Incontinência ma, cúbica fea,                                       Incontinência má, cobiça feia, São as causas deste erro principais.                            São as causas deste erro principais:Scilla por hua mata o velho pay,                                 Cila, por uma, mata o velho pai;Eòta por ambas, contra o filho vay.                             Esta, por ambas, contra o filho vai(CIDADE, 2002.)                                                                      (CUNHA, 1980, p.254)O vocábulo incontinência do verbo conter. Significa ‘ter ou encerrar em si’, ‘compreender, incluir’, conter surgiu no século XIII > contener (XV) de continere em latim. Incontinência proveio do latim incontinentia em 1572, evoluiu para incontinente no século XVI, do latim in-continens -entis > incontinenti (1899). Observemos que o prefixo in- que até então apresentava baixa produtividade passou a ser significativo.
Exemplo 4
35. Não paòòa muito tempo, quando o forte                  Não passa muito tempo, quando o fortePríncipe, em Guimarães eòta cercado                          Príncipe em Guimarães está cercadoDe infinito poder, que deòta forte,                                De infinito poder, que desta sorteFoy reòazerse o inimigo  magoado:                              Foi refazer-se o inimigo magoado;Mas com ƒe oòòerecer aa dura morte,                          Mas, com se oferecer à dura morteO fiel Egas amo, foy liurado.                                       O fiel Egas amo, foi livrado;Que de outra arte poderá òer perdido,                         Que, de outra arte, pudera ser perdido,Segundo estaua mal apercebido.                                 Segundo estava mal apercebido.(CUNHA, 1980, p.254)                                                        (CIDADE, 2002)Infinito é do século XV, proveio do latim infinitus (< in + finis). Refazer surgiu do verbo que no latim era facere > afazer  (XIII) > desfazer (XIII) > desfeita (XVI) > desfeitear (1813) > desfeito (XIII) > fazedor (XIII) > refazer (XIII). Apercebido (perceber > percipere (do latim) > aperceber > apercebimento > apercebemento > apercebido (XV)).
Exemplo 5
86.  Deòpois que foy por Rei aleuantado,                     86. “Depois que foi por Rei alevantado, Auendo poucos anoos que reinaua,                               Quando poucos anos que reinavaA cidade de Siues tem crecado,                                      A cidade de Silve tem cercado, Cujos compôs o barbado lauraura:                              Cujos campos o Bárbaro lavrava.Foy das valentes gentes ajudado                                   Foi das valentes gentes ajudadoDa Germânica armada, que paòòua                              Da Germânica armada que passava,De armas forte e gente apercebida,                              De armas fortes e gente apercebida,A recobrar a Judea já perdida.                                    A recobrar a Judéia já perdida.” (CUNHA, 1980, p.251)                                                            (CIDADE, 2002)O vocábulo despois, como já foi explicado anteriormente, surgiu de: post > pois; de + post> depois/ despois.                                           Alevantada surgiu do latim levantare, de levare ‘erguer’. Alevantado (XIV) > alevantamento (XIII) >  alevantar (XIII).Perceber é um verbo que significa ‘adquirir conhecimento de, por meio de sentidos’, ‘entender, compreender’. Do latim percipere, originária no século XIII. Aperceber (XIII) > apercebimento, apercebemento XIV > apercebido (XV) é um adjetivo que significa ‘desprovido’.Recobrar pertence ao século XIII, tem significado de ‘adquirir de novo, recuperar. Surgiu do latim recuperare > recobrar > recobramento (IV)Exemplo 6
91. Morto despois Affonso lhe òucede                        91. Morto depois Afonso, lhe sucede
Sancho òegundo, manòo e deƒcuidado,                      Sancho segundo, manso e descuidado; Que tanto em òeus deòcuidos fé deòmede,                  Que tanto em seus descuidos se desmede

Que outrem que mandaua era mandado,                  Que outrem quem mandava era mandado.De gouernar o Reino que outro pede                        De governar o Reino, que outro pede,Por cauƒa dos privados foi privado,                        Por causa dos privados foi privado,Porque como por elleò fe regia,                                Porque, como por eles se regia,Em todoò os òeus vícios conòentia.                             Em todos os seus vícios consentia(CUNHA, 1980, p.251)                                                              (CIDADE, 2002)                                                 O vocábulo despois já foi citado anteriormente  (post > pois; de + post> depois/ despois).Descuidado pertence ao século XVI, derivou do latim descuidar > decuidadoso, >      descuidar, descuido (XVI) > descuidista (XX)O vocábulo desmede pertence ao século XVI, do latim tardio medire > mediçooes (XV) > medida (XIII) > medidor, medidagem, desmede (XVI)Consentir pertence ao século XIII, proveio do latim consentire. É um verbo que significa permitir, tolerar, aprovar.Exemplo 07:123. Tirar Inês ao mundo determina,                          123.  “Tirar Inês ao mundo determina,   Por lhe tirar o filho que tem preòo,                               Por lhe tirar o filho que tem preso,Crendo co òangue ƒô da morte indina,                        Crendo co sangue só da morte indignaMatar do firme amor o fogo aceòo:                              Matar do firme amor o fogo aceso.Que furor conòentio, que a eòpada fina,                       Que furor consentiu que a espada finaQue pode òustentar o grande peò

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10 Dez 2008 

DO LATIM AO PORTUGUÊS: OS PREFIXOS LATINOS NUMA ANÁLISE DIACRÔNICA

HAMMES, Mirian


 


A língua portuguesa se originou do latim assim como as demais línguas e dialetos românicos. O latim falado foi a língua trazida para a Península Ibérica no século III a.C., em decorrência das conquistas políticas e dos avanços do Império Romano. A língua evoluiu devido aos diversos locais em que foi implantada e dos vários contatos com outras línguas, outros povos e outras culturas, como diz Coutinho (1969):

 

Produto de uma contribuição tão variada, em que ao lastro primitivo, de humilde origem rural, se haviam sobreposto elementos diversos dialetais ou de outra procedência, esse latim encerrava já em si o germe da diferenciação, que se foi acentuando cada vez mais, desde que o adotaram como idioma comum povos tão diversos pela língua e pelos costumes. Foram essas transformações, que ele sofreu em cada região, que deram em resultado o aparecimento dos diferentes romances e, posteriormente, das várias línguas neolatinas. (in: TARALLO, 1990, p. 93-94). 

  

Na sua evolução, a língua latina precisou adaptar-se às necessidades de uso e assim ocorre até hoje: a sociedade evolui e a língua acompanha a evolução, criando, adaptando e dando novos sentidos aos vocábulos; esta diacronia nos possibilita diversos temas de pesquisa, por isso, neste trabalho, nos ocupamos com a evolução dos vocábulos que têm por base os prefixos latinos, sendo o objetivo investigar  a produtividade dos prefixos e as suas acepções, sabendo quais prefixos desta ordem foram incorporados ou não-incorporados na língua culta escrita, as acepções que foram conservadas e as que perderam suas significações através do tempo.

 

Para tal estudo, pode-se dizer que há três vias para o estudo histórico das línguas: voltar ao passado e nele se concentrar, voltar ao passado para iluminar o presente, estudar o presente para iluminar o passado”. (FARACO, 1998, p. 75). A pesquisa tem a finalidade de acompanhar e observar a evolução da língua sem preocupação específica com uma das abordagens, mas compreendemos que o passado ajuda a entender o presente e vice-versa. Labov nos diz:

 

Admitindo que o mundo da fala cotidiana é racional, não há razão para pensar que ele o foi menos no passado. Se há contradições no registro histórico, não temos dúvida de que elas podem ser resolvidas: o caminho mais plausível para tal solução é pela compreensão mais profunda do uso da língua na realidade do presente. Somente quando estivermos totalmente em casa no cotidiano lingüístico do presente poderemos pensar em nos sentirmos em casa no passado. (in: FARACO, 1998, p. 77)

  

Acreditando que o estudo do presente nos ajudará a compreender o passado, a pesquisa teve início com a seleção de 20% das revistas VEJA dos meses de Janeiro de 2000 a Abril de 2003. Optamos por esta, por se tratar de uma revista que emprega a língua culta, além de estar entre as de maior circulação nacional. O trabalho teve como foco as “Cartas ao Leitor”, algumas propagandas relevantes, as  “Matérias de Capa”, e não deixamos também de contemplar alguns artigos em que houve  maiores ocorrências dos prefixos latinos.

 

A derivação atribui às bases derivantes um novo significado  com os elementos formativos, ou seja, com os prefixos. A derivação pode ser prefixal e sufixal, porém neste estudo será abordado somente o prefixo latino na sua análise diacrônica, afinal:

 

Há na história de todas as línguas um período, naturalmente curto, em que, a par do vocábulo usual, ainda se não perdeu totalmente a consciência do termo velho, que vai desaparecendo. Efetivamente, as palavras não morrem de um golpe. Vão sendo pouco a pouco abandonadas, em benefício de termos novos, até que perecem e ficam sepultadas no seu cemitério próprio, que são os dicionários. (Lapa, 1970, p.46)



  A partir dos dados recolhidos, inicia-se a análise das palavras levantadas, destacando os prefixos latinos e vernáculos mais produtivos atualmente, sempre tendo em mente a lógica latina presente na derivação prefixal em nossa língua materna; na esperança de que a perspectiva do presente ajudará a entender o passado, como já disse Labov, este  passado se refere à segunda etapa que seguirá com a análise de documentos e obras dos séculos passados. Selecionamos como corpora: representando o século XV,  a “Carta de Pero Vaz de Caminha” que ele escreveu ao rei D. Manuel, esta que é considerada o primeiro documento literário do Brasil. Para o século XVI, o “O Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente,  e “Os Lusíadas” de Camões. Para o século XVII, o “Sermão do Segundo Mandatode Pe. Antônio Vieira e, concluindo, no século XVIII, a análise da produtividade dos prefixos latinos nas Cartas Chilenas, obra de Tomás Antônio Gonzaga.


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10 Dez 2008 

SÉCULO XXI: REVISTA VEJA

HAMMES, Mirian

Alguns prefixos tiveram grande incidência, enquanto é baixa a incidência de outros. Logo abaixo encontramos as ocorrências levantadas dos prefixos latinos que serão materiais de estudo quanto a sua produtividade. Nossa preocupação com os dados da revista não incide na quantidade de prefixos encontrados, e sim, em quais prefixos que estão sendo utilizados atualmente e quais caíram em desuso. Todas as ocorrências abaixo foram retiradas da fonte de pesquisa: revista
Veja, referentes aos meses de Janeiro de 2000 a Abril de 2003, conforme a seleção. Tabela 01: Ocorrências dos prefixos latinos na Revista Veja de Jan/2000 a Abr/2003.


 
Prefixos
Latinos

Prefixos Vernáculos

Significado(s)

Vocábulos


 ABS- AB-

   

afastamento, separação

abstratos, abstração, abstém abuso, abdicar


 AD-

  A-

aproximação; tendência; direção

admirar  agrega,  acalorada, afluxo,  ainda, arredores,  aprovam, avermelhada, alastrou, aprofunda, acessado, atingido, afugentados, acaso, atormenta, atentado,  aparece,  atenção, aprender, aprendido, aposta, acúmulo,  atendiam, adotam


 AMBI-



 
duplicidade

ambíguo


 ANTE-



 
posição anterior

antepôs, antemão


 BENE-

 BEN-(BEM-)

bem; muito bom

beneficentebenfeito 


 BI-(BIS-)

  

duas vezes

bilateral, bienal, bípede, binacional, bicampeã 


 CIRCUN-CIRCUM-



 
ao redor

circunstâncias, circundadas, circunferência 


 CIS-



 
posição aquém

---------------------------


 CONTRA-

CONTRA-

oposição, ação contrária

contrapartida (2), contra-ataca, contramão,     contrapõe, contradiz, contradizer, contrapôs,  contradisse


 (CUM-) CON-COM-    CO-

COM-, CON-,     CO-

companhia; combinação; concomitância

comparei,  compostura, computadores,  incompreendido (in + com + preendido),                    comprometido (com + pro + metido), comprovam convivência, conseguido, conforme, concorrer, contextualize, contexto, conclave, descontraímos (des + con + traímos), corresponde, conectasse,  coordenação, coligado,  corrupção, corrosão,


 DE-

DE-

intensidade, afastamentomovimento para baixo; afastamento;

  independência (in + de + pendência), depois,    defrontar,  devastação,  detritos, demais,      debruçou, decorar, degradação, determinado,  decorrer, determina


 (de + ex)

DES-            

ação contrária; negação,     

desfeito,  desembarcou, desempenho,   desvendou, descontraímos,  desmontou,  redescobrimento (re + des + cobrimento), desdobram, descoberta,  descobriu, desorientados, desterrados, desnorteados,               desvalorização, desempenho, desnudou, descoberta, desvio, desempregadas,  desemprego, despejos, desprezo, descrito,    desvalorização,  desafiar, desempenho


 DIS-  DI-



 
separação, diversidade, partes em movimento para vários sentidos

dispositivo, discurso  diversos


 EX-

  E- ES-

movimento para fora; mudança de estado; separação.

expostos, inexplicado (in + ex + plicado),  extensão, ex-presidente, expor, exumou erupção, emitiu, emigraram  


 EXTRA-



 
posição exterior; superioridade

extrapolou, extraordinário


 IN-    IM-I-



 
passagem de um estado ou forma, movimento para dentro

intransigente (in + trans + igente), intransponível (in + trans + ponível), ingerir, informações (3), intenções, informação, influxos, incorpora, investimentos  implantar, impacto, implantado, impostos  irromper, iluminado


 

 
EN- (EM-)

passagem para um estado; tendência; direção para um ponto

enquadrado, ensino, entender, encorajadores  


 IN-     IM- I-



 
falta, negação

inesquecível, incomuns, incompreendido, incontável, intransponível, insuficientes,   inexplicado, independência, injusto, indolores, infelizmente,   intocadas, intocáveis, ininterruptamente improvável, impunidade, imbatível  inúmeros


 INTRO-,INTRA-



 
posição interior, movimento para dentro

introduzidas, intromissão, introduziu ---------------------------


 INTER-

   ENTRE-

posição intermediária; reciprocidade posição intermediária; reciprocidade

interligado, interativa, internautas, internet,  internacional, interclima,   internacionalização,                         internacionais, interativo, interação entrevista, entre-vista, entrevistado, entrevistar                  


 JUSTA-



 
proximidade; posição ao lado de

Justaposição


 OB-

   (O-)

 oposição; posição em frente; inversão

obter, obsessão, obtendo, objeção, obsessiva,              observação, observadores     


 PER-



 
movimento através de;  intensidade;ação completa; duração;

repercussão (re + per + cussão), percorrer,  percorreu, permanece, persiste, perspectiva,                     persecutórios, percorrendo,  percebido,   perturbador, pernoitando, permitia       


 POST-

 (POS-)

posição posterior;

posterior,  posterioridade 


 PRE-

(PRE-)

anterioridade; superioridade; intensidade

preparou, previsto, previsível, pregressa,   prejuízo, prefeitos,  preparado, pretexto


 PRETER-



 
além de

---------------------------


 PRO-



 
posição em frente; movimento para frente;em favor de; lugar de

reprodução (re + pro + dução), propõem,    proporção, propaganda, profundos (as), proclamar


 RE-
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10 Dez 2008 

Estatísticas versus Custos versus Prejuízos de Acidentes de Trabalho

HAMMES, Mirian


Conforme De Jesus no texto Conta Cara (1999:27), “O pior dos custos é a pessoa perder a vida, sabendo-se que a sociedade leva mais de 20 anos para formar, educar e treinar um homem para o trabalho”. Mediante levantamento de dados, acidentes de trabalho e doenças profissionais ou ocupacionais oficialmente registradas, passa-se a ter maior percepção, do quão complexos é a extensão e gravidade dos problemas que afetam as relações humanas versus organizacionais.

Por isso, é prudente apurar os fatos com responsabilidade, haja vista que as respectivas documentações de análise e investigação de acidentes de trabalho, bem como doenças profissionais ou ocupacionais, deverão permanecer arquivadas por 20 anos na empresa, com possibilidade de se transformar em passivo trabalhista e, ser julgado na vara civil ou criminal. Pois o que não se pode esquecer, é que por trás de qualquer máquina, equipamento ou material, está o homem – trabalhador, bem maior das organizações, bem como maior riqueza da nação.

Conforme De Faria (1971:136), a UNESCO tem um catálogo com 13.000 profissões registradas nos diversos países em que os acidentes variam muito, todavia a incidência depende muito da atenção, do treinamento e das medidas de prevenção adotadas, bastando considerar que na Europa o índice de acidentes é dez vezes menor do que no Brasil, para a mesma profissão. As profissões mais perigosas são: “Mineiro, escafandrista, vidraceiro, foguista e maquinista de navios, laboratorista, operário de construção civil, eletricista de rua, operário de pedreiro, bombeiro, ceramista, madeireiro, tipógrafo e operário de fábrica de explosivos”.

Conforme Freitas no texto Mãos Protegidas (1999:56), “na maioria das atividades desenvolvidas pelo homem, as mãos são as partes do corpo mais utilizadas, bem como também as mais atingidas por acidentes de trabalho”. Com base nos estudos realizados pela UNESCO acerca das profissões mais arriscadas, cada qual com as suas peculiaridades, pesquisas revelam que, grande parte dos acidentes, decorre da falta de atenção, de condições desfavoráveis no trabalho e, principalmente, da falta de treinamento, bem como das improvisações nos ambientes de trabalho.

Conforme Farber no texto Onde Estamos Errando (1995:50), como já dizia MURPHY “Tudo o que pode ocorrer, irá ocorrer com o máximo dano e no momento mais inoportuno”. Porém, investir em treinamentos, tem evitado grande parte destes acontecimentos indesejáveis.

Conforme De Cicco no texto A Parte Central (1997), os acidentes de trabalho, presentes em todos os ramos de atividades, não acontecem por acaso, na verdade, eles são provocados. Atribuímos estes ao fato do homem interagir de forma diretas ou indiretas, reforçadas pelo crescente processo de industrialização. Por isso, investir em prevenção, é promover a saúde física e mental, bem como a integridade física dos trabalhadores. Tal atitude tem se revelado, excelente na tomada de decisões, que se bem planejada e estruturada, vem de encontro à busca da mudança de cultura organizacional, e se revela ao passar a identificar e reconhecer o seu trabalhador como patrimônio mais valioso da organização.

Conforme De Cicco no texto Artigo Conta Cara (1999:27), “Há grande dificuldade em coletar e obter informações precisas das empresas, pois a quantidade de acidentes de trabalho é muito superior ao divulgado oficialmente, haja vista que temos quase a metade da força de trabalho atuando na informalidade, o que distorce a estatística acidentária do País”. O registro estatístico deve ser utilizado para demonstrar os indicadores de desempenho, importante ferramenta de apoio, que podem ser entendidos como uma relação matemática que mede numericamente atributos de um processo ou seus resultados, com o objetivo de comparar esta medida com metas numéricas preestabelecidas pelas organizações. 

Ter foco centrado na prevenção requer a presença de equipes auto geridas, profissionais habilitados e qualificados, capazes de investigar e analisar com precisão, registros pertinentes a irregularidades associadas à ocorrência de acidentes de trabalho, bem como doenças profissionais ou ocupacionais. Após avaliar informações agrupadas em banco de dados, emitem parecer técnico, propondo as respectivas mudanças necessárias, para fins de corrigir falhas ou defeitos de processos, propiciando a melhoria das condições de trabalho (DE CICCO, 1999).

Conforme De Cicco no texto Revendo Conceitos (1997), as palavras produtividade e qualidade permeiam toda a sociedade, como sendo um dos frutos da globalização econômica. Garantir um padrão de qualidade na linha de processos do segmento de vidros requer observações associadas aos trabalhadores em relação às características dos riscos que a atividade impõem.

Para gerar bons resultados, é de suma importância conhecer, bem como ter domínio acerca do gerenciamento de riscos, para fins de promover tal melhoria contínua. Mediante levantamento de dados, passamos a ter noção dos esforços despendidos, pois passam a ser de conhecimento de todos (Registros de acidentes de trabalho e doenças profissionais ou ocupacionais), cujos números são alarmantes no Brasil, bem como no exterior e que vem a representar um gasto de altas cifras.

No Brasil, o Decreto-Lei nº 3.700, datado em 09 de outubro de 1941, dispunha de um capítulo dedicado à prevenção de acidentes de trabalho, dando forma jurídica às recomendações da OIT – Organização Internacional do Trabalho. Embasados neste decreto, empresas e funcionários começam a se organizar, resultando na formação da CIPA – Comissão Interna de Prevenção de Acidentes, porém a sua atuação se revelava ineficaz (DE FARIA, 1971).

Diante de tal impotência, bem como falta de atitude voltada à prevenção, eleva o Brasil em 1970 ao título de campeão mundial de acidentes de trabalho, atingindo a marca de 1.220.111, distribuídos da seguinte forma: 5.937 casos de doenças típicas de cada profissão; 14.502 casos de acidente de trajeto; 1.199.672 casos de acidentes típicos. Para uma massa de 7.284.022 segurados, registrou-se neste período um percentual de 16,75% de acidentes de trabalho. Isto representou para o país 17.635.272 dias de trabalho perdidos, com uma média de 19 dias de ausência ao trabalho para cada trabalhador segurado (DE FARIA, 1971).

Passados 25 anos, após a implementação de uma nova visão holística da importância de um SESMT eficaz nas organizações e, mediante a adoção de novas técnicas e medidas de controle voltadas à prevenção dos trabalhadores, elevou o Brasil em 1995 a ocupar o 14º lugar no ranking mundial de acidentes de trabalho, conforme apontam estatísticas elaboradas pela OIT. Apesar de significativos avanços na prevenção de acidentes, com excelente trajetória em busca melhoria contínua, os resultados ainda não são satisfatórios, haja vista que as empresas brasileiras respondem por 3,9 mil mortes de trabalhadores, que tem as suas vidas ceifadas, vítimas de acidentes de trabalho (DE FARIA, 1971). 

Conforme De Cicco no texto Artigo Conta Cara (1999:26), “Os acidentes de trabalho ocorrem com freqüência, em virtude da falta de organização das empresas, por desconhecerem os custos reais dos acidentes, pois não possuem os números na ponta do lápis, e que pode ser atribuído à falta de históricos de acidentes de trabalho”. Estes têm um elevado ônus para sociedade, sendo que é preciso fazer uma inversão de valores, mediante um rastreamento rico em detalhes, para apurar fatos e condições que possam ter corroborado para a sua ocorrência, bem como prever possíveis conseqüências do respectivo evento indesejável.

        
Figura 22 – Redução dos Acidentes de Trabalho – Metas e Objetivos em ComumFonte: Criação do Acadêmico.

A redução de acidentes de trabalho tem sido um anseio de todos: governo; empresários e trabalhadores, onde a questão social, muito discutida em seminários voltados à prevenção dos trabalhadores, haja vista a alta freqüência dos acidentes de trabalho graves seguidos de morte, bem como das crescentes mutilações de operários, que leva a um desgaste da imagem das partes envolvidas.

Embora a contabilidade humana e financeira dos acidentes de trabalho, bem como problemas derivados da carência de segurança, atribuída a falta de medidas de controle, voltados à saúde ocupacional não serem tarefa simples, é preciso no mínimo ter noções dos reais custos diretos e indiretos, para que possam ser computados e assim chegar a mensurar o montante do ônus a pagar. Todavia, é necessário considerar que não há cobertura total, pois sempre haverá probabilidade da ocorrência de algum infortúnio nos empreendimentos humanos.

Além de causar prejuízos às forças produtivas, os acidentes de trabalho geram despesas como pagamento de benefícios previdenciários, recursos que poderiam estar sendo canalizados para outras políticas sociais. Urge, portanto, reduzir o custo econômico mediante medidas de prevenção através da modernização das máquinas e equipamentos, bem como do próprio ambiente de trabalho que vem a contribuir na redução de acidentes de trabalho (DE CICCO, 1999).

Conforme Marta Filho (1999:27), “Tudo isso interfere na produtividade das pessoas e precisa ser avaliado“. Por isso, cabe a máxima do cientista inglês Kelvin: “Se você puder medir o que está falando e expressá-lo em números, você sabe alguma coisa acerca desse assunto, mas se não puder expressá-lo em números, seu conhecimento é estéril e insatisfatório”. Pode se afirmar que o caminho mais seguro para redução de acidentes de trabalho, é o emprego de cálculos de engenharia econômica, eliminando-se o máximo as condições de incerteza.

Fica difícil rastrear o montante das despesas relacionadas a acidentes de trabalho. É mais ou menos como a ponta de iceberg: a ponta visível mostra o que foi gasto e, a parte invisível esconde um emaranhado de dispêndios cujos registros se perdem entre os setores da empresa, por não se encontrarem indicadores objetivos para expressá-los em dinheiro (DE CICCO, 1999).

Os empregadores precisam entender que seus lucros não podem advir de milhares de acidentes de trabalho, que mutilam ou dizimam trabalhadores, bem como o surgimento de doenças ocupacionais ou profissionais que afetam a saúde dos trabalhadores, trazendo consigo um imenso custo social. Muito pelo contrário, devem promover um estilo de vida saudável, cujos seus reflexos, tem incidência direta na economia da organização. Não se vislumbram investimentos em projetos voltados a combater e reduzir acidentes de trabalho em curto prazo. Eles envolveriam a TIR – Taxa Interna de Retorno, associada aos respectivos riscos. Ou seja, não se pode mais esperar para investir em segurança (MARTA FILHO, 1999).  

O planejamento estratégico das organizações, cuja essência procura contemplar a base da pirâmide, terá mais chances de êxito, pois tende a investigar e identificar as principais causas com potencial de gerar acidentes de trabalho. Ao priorizar a redução significativa de acidentes, bem como custos diretos e indiretos, há de se considerar fatores contribuintes relacionados aos aspectos tecnológicos, que tem influenciado nos resultados numéricos das estatísticas. Por isso, é difícil e complexo mensurar os custos reais diretos dos acidentes de trabalho (CRUZ, 1999).

O fato de, muitas vezes, não se poder estabelecer exatamente o nexo causal de uma doença que leva ao afastamento do empregado, com o seu trabalho atual, atrapalhando o cálculo. Acontece muito de as empresas contratarem empregados que já vieram com doenças adquiridas em outras empresas. Então, a causa original desse custo não está na empresa, fica difícil estabelecer com certeza (CRUZ, 1999).

Gráfico 02 – Acidentes de Trabalho – Custos DIRETOS versus INDIRETOS

Fonte: Criação do Acadêmico baseado em Chiavenato (1989:112).

Diversos países têm como parâmetro verdadeiro de cálculo, a proporção de 4 para 1, entre os valores do custo indireto e do direto. O custo indireto representa, portanto, quatro vezes o custo direto do acidente de trabalho, sem se falar na tragédia pessoal e familiar que o acidente de trabalho pode provocar.

Os números registrados de acidentes de trabalho no país são assustadores e vêm crescendo a cada ano, cujo principal agente causador responsável, na maior parte das vezes, vem a transgressão a norma de segurança do trabalho. Do contrário, caso fossem obedecidas, poderiam evitar a ocorrência destes acidentes de trabalho, bem como reduzir esta lastimável incidência de ônus elevado a ser pago pela sociedade (CHIAVENATO, 2004).

A ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, em sua norma 18-R estabelece que o custo direto do acidente de trabalho é o total das despesas decorrentes das obrigações para com os empregados expostos aos riscos inerentes ao exercício do trabalho, como as despesas com assistência médica e hospitalar aos acidentados, bem como respectivas indenizações, diárias ou por incapacidade permanente.

O custo indireto do acidente de trabalho, segundo a ABNT, envolve todas as despesas de fabricação, despesas gerais, lucros cessantes e demais fatores cuja incidência varia conforme a indústria.

Já o INPS – Instituto Nacional de Previdência Social, inclui no custo indireto do acidente de trabalho os seguintes itens: Gastos do primeiro tratamento; Despesas sociais; Custo do tempo perdido pela vítima; Perda por diminuição do rendimento no retorno do acidentado ao trabalho; Perda pelo menor rendimento do trabalhador que substitui temporariamente o acidentado; Cálculo do tempo perdido pelos colegas de trabalho; etc...(CHIAVENATO, 2004).

O programa de treinamento deve ser elaborado de acordo com as necessidades das organizações, além de atender rodízios de funções nos postos de trabalho, deve atuar no controle do tempo, ou seja, reduzir o tempo de exposição dos trabalhadores aos agentes agressivos, pode vir a corroborar com os propósitos e anseios do empregador e dos empregados.

Ao combater e eliminar riscos graves e perigos iminentes, reduzir a exposição prolongada dos trabalhadores em seus postos de trabalho, quando da execução de suas tarefas pertinentes à função, irá preservar a força de trabalho. Do contrário, inevitavelmente a sociedade será afetada, pois os agravos à saúde física e mental, bem como danos a integridade física e doenças profissionais ou ocupacionais suscetíveis dos trabalhadores em geral (CHIAVENATO, 1989).

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